A construção da historiografia sobre o Integralismo (I)
Em nosso último artigo, a emoção tomou conta da razão e desferi uma série de depreciações sobre um artigo publicado em um site, ampliei o foco para uma crítica dura, mas realmente séria, ao autor – que tem a responsabilidade sobre o que fala – e sobrou até ao grupo ao qual faz parte, só para demonstrar que falar é fácil, mas ouvir de volta nem tanto. Afinal política é um debate, não um monólogo. Além do mais, os autores têm que entender que estão falando sobre pessoas. E comparar o integralismo às milícias atuais é difamação. E nos preocupa. Preocupa-nos porque as milícias no Rio de Janeiro são grupos implacáveis de terror e extermínio. E ocupam espaços vagos pela ordem pública, e pelos traficantes de droga. Preocupa-nos porque nos chamam de marginais. Enquadram-nos em um segmento da população que desrespeita as leis, desrespeita a vida, desrespeita o estado de direito. Enquadram-nos em um segmento da população que se não concorda, assassina. Há muita coisa por ai chamada “integralismo” que é realmente ridícula. Tão ridícula que é perda de tempo – por parte dos próprios integralistas – criticar estas manifestações pessoais de uma doutrina histórica. Agora não tem nada por ai entre os integralistas sinceros ou não, e dentre estes últimos, os mais falastrões, que se compare às milícias atuais. Não mesmo, e o autor na verdade – apesar de, como apontamos, construir seu raciocínio em fontes secundárias, sabe disto, se não, com certeza absoluta, optaria por falar sobre outro assunto.
Frisado isto, vamos tentar entender o autor. De onde ele construiu seu raciocínio? Como surgiu esta corrente de opinião a qual faz parte? Como se desenvolveu a historiografia sobre o integralismo brasileiro? E concluo este assunto, que levará alguns artigos, com a seguinte declaração: Tal qual um convalescente deve ouvir seu médico (mesmo que neste caso o médico sinceramente queira que o convalescente morra), leia o que os pesquisadores do integralismo têm a dizer. Levem a sério seus estudos. Não temam as críticas (isto serve para os pesquisadores também). Estamos construindo a história a qual eles estão assistindo e perpetuando. E muitas críticas estão absolutamente corretas, seja sobre o Integralismo de 1930 ou pelo dos dias atuais. Tem pelo menos quatro trabalhos destes pesquisadores que são ótimos. Mudaram minha visão do integralismo, e a partir destes trabalhos elaboramos os cursos de história do integralismo que foram tão bem sucedidos e temos ajudado os amigos do NIERJ a desenvolver um trabalho sério, sem anacronismos, sem personalismos, sem preconceitos, sem caciques. Não vou citar seus nomes, para evitar melindres por parte dos autores – que odiariam a idéia de que são úteis - mas nenhuma tese, nem mesmo as mais redundantes, devem ser ignoradas por completo. Os trabalhos são em geral sérios, criteriosos, ricos em detalhes, principalmente nas entrelinhas, que podem e devem ser estudados pelos próprios integralistas. A despeito de meu artigo anterior: respeitem os pesquisadores. Não precisamos concordar com tudo o que escrevem. Mas discordar de tudo é insensatez. Vou escrever alguns artigos sobre o assunto, mas isto nunca se esgotará. É um processo constante que cada integralista viveu em sua época. É, portanto um processo normal para quem se insere no campo político, mesmo que o movimento se posicione como cultural.
Vamos ao que interessa:
O ideal de Plínio Salgado, até o momento de sua morte, havia sido mais criticado, do que propriamente analisado seus adversários políticos, e mais pelo que se percebia dele, do que pelo que teria sido. Pouco se importava, àquele momento, em fundamentar estas análises, e, mesmo as análises fundamentadas tinham já como objetivo determinado a depreciação. Sua imagem foi diluída a tantas outras da história nacional, simplificada ou esmiuçada em conceitos complexos ou mesmo em frases simples, repetidas exaustivamente, na intenção de torná-las a verdade. Embora tenha sido constantemente refutada pelos integralistas, e estas refutações por sua vez fossem fundamentadas, esta imposição não foi superada. Independente do grau de acerto, assim sendo, prevaleceu na memória histórica às críticas e os apontamentos dos opositores de Plínio Salgado e do Integralismo que criara.
O historiador Hélgio Trindade foi um dos pioneiros em tentar fundamentar “cientificamente” a crítica ao Integralismo, em sua tese de doutorado, defendida na França. Seu objetivo era apontar o Integralismo como o “fascismo brasileiro na década de 1930” e foi, a primeira vista, muito bem sucedido nisto. Utilizou-se de métodos qualitativos e quantitativos, técnicas avançadas e inovadoras de pesquisa para sua época, e baseou-se em teóricos respeitados, para definir os conceitos nos quais trabalhou. A academia o recebeu muito bem, e sua hipótese se alastrou pelos livros didáticos e dos novos historiadores, determinando praticamente sozinho a produção científica nos quinze anos seguintes. Seu livro aparentemente se esgotara rapidamente, e era tarefa árdua encontrá-lo em lojas de livros usados na década de 1990, por exemplo. Até que se descobriu recentemente que grande parte da tiragem ficou mesmo esquecida em um depósito na própria editora, até uma livraria comprar este estoque recentemente (Esta livraria está situada no Rio de Janeiro, e vende o livro novo a módicos R$ 10,00).
Provada ou não sua tese, a percepção de Integralismo, de Hélgio Trindade, que chega a chamar Plínio Salgado de “pusilâme” (Desconfie demais de um historiador que utilize adjetivos ou pejorativos) é restrita a doutrina e às exterioridades da Ação Integralista Brasileira (1932-1945). Hélgio Trindade não quis ir muito longe, utilizou de todo seu conhecimento e bolsa de estudos, paga pelo dinheiro público, simplesmente para “comprovar” aquilo que já afirmavam: “o integralismo era um fascismo”. O processo de desenvolvimento do integralismo no pós-Guerra, foi por ele sumariamente ignorado, como se não existisse. A experiência integralista, a doutrina e mesmo exterioridades de organizações como o Partido de Representação Popular (1945-1965), a Confederação dos Centros Culturais da Juventude (1952-1975), e a União Operária e Camponesa do Brasil (1957-1975), parecem que não existiram. Por exemplo, os jornais propagadores da doutrina integralista, Renovação Brasileira, Idade Nova e A Marcha, fundados a partir de 1945, passam completamente despercebidos. Toda esta fonte histórica foi oculta, embora o autor a conhecesse bem.
O que talvez explique isto é que, embora a AIB tenha sido a organização integralista de maior porte, ainda que tenha sido a de menor duração, foi realmente a de maior projeção externa. Se essa, ou outra razão, for sincera, talvez, um título mais apropriado para a sua tese teria sido: “A Ação Integralista Brasileira: uma organização fascista na década de 1930”. A tese sobre o imaginário integralista construída por Trindade tem mais uma razão de ser: Em sua banca, estava René Remond, ligado à esquerda católica na juventude, e idolatrado pelos socialistas, quase tanto quanto Eric Hobsbawn. Uma tese, em última instância, é escrita para agradar a banca, e não para agradar o mercado editorial.
No Brasil, sua tese também não passou despercebida pelos historiadores que viam no estudo do Integralismo sua via para o doutorado, e, conseqüentemente para o estrelato entre os acadêmicos. José Chasin, falecido precocemente em 1998, buscou em algumas das mesmas fontes de Trindade e, talvez sem querer, acabou por desmenti-lo (as “Notas Políticas” escritas no jornal A Razão antes da AIB, bem como alguns dos livros escritos por Plínio Salgado). Chasin, ou o editor de seu livro O Integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hiper-tardio (a 2ª edição que possuímos foi publicada no ano seguinte ao seu falecimento), deixa bem claro a epistemologia a qual seguiu: Karl Marx (“Toda ciência seria supérflua se a aparência das coisas coincidisse diretamente com sua essência”), e a função de sua obra: “Plínio Salgado e o Integralismo sempre foram condenados, mereceram, merecem e nunca será demais prosseguir na sua condenação. Com uma diferença, que acentua e vigora a sanção: há que sentenciá-los por aquilo que são, não por aquilo que seus válidos inimigos entenderam, ou puderam entender, que fossem. E isto, acima de tudo, para o nosso bem.”
Com a cabeça em paz após esta (literal) sentença, seja para demarcar sua posição ideológica ou mesmo para conseguir espaço no patrulhado meio editorial, Chasin, tentou exaustivamente prova sua tese. Demarcou-se como aquele que decretou que “o Integralismo não é um fascismo”. Vale citar que este autor, assim como Trindade, não ignorava a existência do Integralismo após a AIB, mas Chasin preferiu também não ir até mais adiante.
Francamente falando: a primeira lei do Marketing, segundo o mestre Kotler é: Seja o primeiro em seu seguimento. A segunda lei é: Se você não for o primeiro, crie um seguimento. Trindade (1972, publicada somente em 1979) e Chasin (1978) foram bem sucedidos, cada um em seu posicionamento, o que os tornou essenciais na bibliografia em quaisquer trabalhos sobre o tema posteriores aos seus. Outro autor Gilberto de Vasconcellos (1979) escreveu A ideologia curupira: análise do discurso integralista. Vasconcelos, não invalida a alcunha fascista de Trindade, mas também não é categórico tal como Chasin, alcança um meio termo na palavra mágica: especificidade. Obviamente, seu estudo também se limita a antes e durante a AIB. Para os três autores, que utilizam a mesma expressão ao adjetivar o Integralismo: “Fantasma”, provavelmente a única organização que os aterrorizou ao ponto de buscar “sentenciar” seus adeptos, foi o da AIB, e não as que se formaram no período posterior a 1945.
Com o caminho aberto, paralelamente, outros autores se inseriram na historiografia em construção. A ministra do governo Lula, Marilena Chauí, criou inclusive seus relevantes Apontamentos para uma crítica da Ação Integralista (1978), muito tardiamente aproveitados. Ricardo Benzaquem Araújo (Totalitarismo e revolução, 1987), utilizando os arquivos do Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV), buscou criar uma outra linha de raciocínio, afinal, segundo o mesmo, “seria totalmente descabido empreender mais um exame do seu [de Plínio Salgado] pensamento se as minhas conclusões acabassem por se mostrar idênticas às apresentadas pela bibliografia que me precedeu”. E na nota de rodapé deixa claro: “Refiro-me em especial a Trindade (1979), Vasconcelos (1979), Chauí (1978) e Chasin (1978). Curiosamente, seu “instintivo horror às polêmicas acadêmicas”, lhe impediu de fazer o que chamou de “balanço crítico” dos autores anteriores a ele. Com isto, se isentou de problemas, mas ao mesmo tempo empobreceu o debate historiográfico. Para Benzaquém Araújo, o integralismo deveria ser compreendido como Totalitário e não como Fascista. Isto não agradou muito os historiadores que dispensaram sua presença em suas bibliografias de apoio.
Nos próximos artigos: Das abordagens regionais ao estudo do PRP, e outras obras que ampliaram o foco sobre integralismo até os dias de hoje, e abordam a antes ignorada história, bibliografia e as fontes produzidas pelos integralistas após a extinção da Ação Integralista Brasileira.
Por Marcus Ferreira
Professor e Historiador, Marcus Ferreira é autor do livro "O Integralismo na Cidade de Matão: Oswaldo Tagliavini e sua máquina de idéias", lançado em 2006. É colaborador de Nova Offensiva.
