O Integralismo!

"Haver pertencido ao integralismo é um título que me tem proporcionado os melhores momentos de minha vida social, profissional, política, cultural, cordial e afetuosa." - Gerardo

Entre milícias e militantes (IV): uma breve análise

Em 08 de Agosto de 2009 por Marcus Ferreira


O historiador mato-grossense Jefferson Rodrigues Barbosa escreve o seu artigo, à primeira vista eficiente, "Entre milícias e militantes (IV): neointegralistas ou integralismo contemporâneo" [1], publicado na página “Passa Palavra”. Este pequeno site, segundo seus responsáveis, é formado por um "grupo de orientação anticapitalista, independente de partidos e demais poderes políticos e econômicos, formado por colaboradores de Portugal e do Brasil, cujo intuito maior é o de construir um espaço comunicacional que contribua para a articulação e a unificação prática das lutas sociais." Sem deixar claro que "lutas sociais" seriam estas às quais os gajos estão engajados (desculpem a piada, embora o assunto seja sério).

Em nenhum lugar da página este se diz "socialista", muito menos "comunista", pelo menos diretamente. Mas, lendo os doze “Pontos de Partida” [2] da linha editorial que seguem, não resta qualquer dúvida de sua tendência, tornando o assunto "integralismo" interessante ao seu conselho editorial, portanto, um espaço para o ataque ao Sigma, deste modo, nada de se esperar de diferente do que argumentos contra o integralismo.

Jefferson Rodrigues Barbosa, o autor, é bem prolixo para o assunto, tomando cuidados que só se aprende nas salas de professores, e não lembra nem de perto o sarcástico comentarista do linearismo de Campinas, ou mesmo do integralismo da Frente Integralista Brasileira (FIB), em outros momentos mais descontraídos. Aproveitando a repercussão de seu primeiro artigo que, segundo os mesmos, chamou a atenção do grupo Anjos da Guarda (Fica a pergunta ao autor: Este fato realmente aconteceu? Pesquise!), que impediram a pichação de um muro, já tão pichado que nem se sabe mais a sua cor original, no bairro do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, o autor chega agora a FIB e ao "integralismo contemporâneo", ou "neointegralismo".

Há de se frisar que o termo "neointegralismo" é criação das conversas do "Grupo de Estudos do Integralismo" (GEINT) em uma tentativa óbvia de fazer um paralelo com o termo "neonazismo". O termo ainda não ganhou o espaço que almejam, mas um dia, chegam lá, dado a insistência em que repetem. Aquela velha história da repetição para se tornar a verdade. O GEINT, por sua vez, é formado por historiadores e cientistas políticos contrários ao integralismo, mas que encontraram nele sua razão de ser profissional, sua fonte de renda, e dedicam sua vida a estudá-lo, para através de publicações e palestras se destacarem no meio acadêmico (se livrar totalmente do capitalismo não é mole nem para anticapitalistas...).

Voltando ao assunto, o professor Jefferson diz para o que veio assim que soa o primeiro round: "No presente contexto de denúncia e de atuação de grupos portadores de valores intolerantes, marcados pelo chauvinismo, racismo e pelo discurso contra os imigrantes, o retorno à insanidade configurada no neofascismo e neonazismo possibilita o debate crítico em oposição às concepções que advogam o ‘fim da história’ e o ‘fim das ideologias’."

Bom, porque então falar do integralismo? Intolerância? Chauvinismo? Racismo? Contra imigrantes? "Fim da história"? "Fim das ideologias"? Ele, o autor, parece estar falando de outro assunto, pois isso não se aplica ao integralismo brasileiro. O autor publicou originalmente a frase cientificamente elaborada no artigo “Ideologia e intolerância: a extrema direita latino americana e a atuação no Brasil dos herdeiros do eixo” (pomposo nome para uma fantasia de Clóvis Bornay. Eu sei, o assunto é sério... mas fica difícil de não achar graça) publicado na revista Aurora [3]. Na verdade o artigo em Passa Palavra é uma ampliação deste primeiro, mas o autor não se corrige, só amplia o artigo e comete alguns dos mesmos erros, e o mais grave é justamente não falar sobre aquilo para que veio (a tal denúncia...).

Há de se compreender que artigos como este proliferam-se na internet à medida em que o Integralismo avança, o que é algo bem normal, e saudável, para o debate político. No entanto, o que os historiadores parecem desconhecer é que o movimento que existe hoje surgiu por volta de 1998 e não encontrou suas origens diretamente na AIB nem no PRP, nem na Cruzada de Renovação Nacional da década de 1980, mas em três pessoas que se conheceram através da pesquisa sobre o integralismo no Centro Cultural Plínio Salgado (CCPS), organizado pelo saudoso Dr. Arcy Lopes Estrella.

A partir das reuniões no CCPS, e friso, em especial, um encontro nacional fabuloso ocorrido em 1998, com a presença de uma centena de integralistas de diversos estados, se formou o Núcleo Integralista do Rio de Janeiro do qual fiz parte até 1999, quando se dividiu o Núcleo em dois movimentos paralelos: a Associação Auriverde e o Centro de Estudos do Integralismo (CEDI). Enquanto a Auriverde especificamente apoiava localmente o jornal Ação Nacional, buscando formar a Ação Nacionalista (mais ampla do que o integralismo), o CEDI buscou formar uma corrente nacional, tendo relações estreitas com a TFP, com marianistas, e nacionalistas de esquerda, sendo bem sucedido durante alguns anos. Quando o CEDI desapareceu, os membros do CEDI-RJ se reestruturaram nos atuais Núcleos Integralistas do Estado do Rio de Janeiro (NIERJ), um dos núcleos mais ativos no país.

Neste mesmo tempo, em Santos, se formou, a partir do núcleo independente local, o Centro de Estudos Históricos e Políticos (CEHP), que tentou uma estruturação nacional também, culminando com dois encontros nacionais bem estruturados. Em paralelo, a Casa de Plínio Salgado ampliou suas atividades e começou a ser o centro do movimento no Estado de São Paulo, que culminou na formação da atual Frente Integralista Brasileira, à qual o NIERJ se integrou posteriormente (O CEDI, portanto, nunca fez parte da FIB como este autor e outros afirmam).

Quando o autor afirma que "no Brasil, sob a influência do contexto de conservadorismo internacional, em 1981, foi fundada a Casa Plínio Salgado por Pedro Baptista de Carvalho", ele demonstra não compreender que o integralismo nunca teve nada de conservador. Se o movimento continuou a existir, mesmo após a morte de Plínio Salgado, significa que seus membros justamente nunca encontraram outra corrente política que os animasse. Demonstra que a ordem das coisas atuais ou da década de 1930 não os agradava. Que queriam não conservar a ordem vigente, mas justamente alterá-la. Como alguém pode ser "conservador", se almeja a mudança?

Outro erro repetido pelos “estudiosos” do movimento atual é acreditar que a Ação Integralista Revolucionária (AIR) tenha saído do papel. Existem outros grupos menores que passam despercebidos pelos ditos pesquisadores, que tem muito mais membros, influência e desenvoltura do que a AIR, a qual na prática existe apenas como uma página na internet.

O autor dentro de sua ótica socialista, utiliza o pensador Gramsci. Não é fácil utilizar Gramsci, mas fica bonito aos olhos da academia. Vamos ser sinceros, todos os pesquisadores são burgueses, a maior parte funcionários públicos, e adoram fazer compras, viajar, e todas as práticas capitalistas possíveis, mas parecer revolucionário é tão importante para seu ego, quanto para a manutenção de seu status junto ao meio acadêmico. Por isto, Gramsci se torna importante em uma ou duas citações, não os levem a mal.

Finalmente, falta ao autor conhecimento sincero de seu objeto de estudo. Suas fontes são todas secundárias, muitas colhidas em páginas na internet tal como a Wikipédia e o Centro de Mídia Independente (CMI), que não pedem nenhum requisito para aceitar artigos e são de credibilidade questionável. De fato, seria difícil para ele conseguir certas informações, mesmo porque algumas delas são de conhecimento apenas de quem as vivenciou. Falta essencialmente também ao autor - pela própria distância geográfica que se encontra dos principais núcleos de atividade do movimento atual - assistir a uma reunião ou duas da FIB, por exemplo. Falta conversar com um de seus líderes ou membros. Falta, portanto, conhecimento de campo para falar sobre o que está acontecendo neste momento. Fazer história é isso. Criticar a AIB ou PRP é fácil. Todas as fontes sobre estes movimentos são secundárias, não há muitos camisas-verdes ou águias brancas por ai. Então é a palavra do pesquisador diplomado, contra a do militante apaixonado. Luta ganha nos meios intelectuais. Mas calma, criticar o movimento atual é mais fácil ainda. É só procurá-lo.


Notas e Referências
[1] Para quem ainda não leu, disponível em: http://passapalavra.info/?p=8711.
[2] Disponível em: http://passapalavra.info/?p=121. Acesso em: 8 de Agosto de 2009.
[3] BORNAY, Clóvis - Ideologia e intolerância: a extrema direita latino americana e a atuação no Brasil dos herdeiros do eixo. Aurora (2 Jun. 2008) Ano II, Número 2.



Fazer uma análise sobre o movimento atual sem conhecê-lo de fato, soa bastante falso, e sabemos que este e outros pesquisadores são sinceros. Procuram pelo menos ser sinceros em suas próprias convicções políticas criticando o integralismo. Poderiam analisar com o mesmo entusiasmo o marxismo. Mas não é qualquer um que está disposto a uma autocrítica que acabe por depreciá-lo.

Por Marcus Ferreira
Professor e Historiador, Marcus Ferreira é autor do livro "O Integralismo na Cidade de Matão: Oswaldo Tagliavini e sua máquina de idéias", lançado em 2006. É membro da FIB-RJ e colaborador de Nova Offensiva.